Vinho Italiano

Amarone – O Classico sabor de Valpolicella

O mais prestigiado vinho de Valpolicella, cuja excelência e singularidade são mundialmente apreciadas, é produzido na região do Vêneto, nordeste da Itália. Conhecida por sua capital romântica, Veneza, o Vêneto faz fronteiras com outras áreas de produção vínica produzindo vinhos plurais apreciados em todo o mundo.

O Amarone Della Valpolicella é um vinho tinto seco de sabor intenso produzido na sub-região de Valpolicella na província de Verona, obtido através da secagem das uvas durante cerca de 100 dias, conhecido como appassimento, período em que as substâncias das bagas, como açúcares e polifenóis, aumentam. As uvas secas são vinificadas no inverno e, após uma fermentação lenta, produz-se um vinho seco com elevado teor alcoólico. O longo envelhecimento em madeira refina a sua estrutura e personalidade únicas, tornando-a capaz de evoluir durante décadas. É um dos vinhos tintos de maior prestígio da região frequentemente descritos como o auge.

O Vêneto é uma região de grandes cadeias montanhosas e uma extensa área plana de produção de vinho que disputa o primeiro lugar na Itália em termos de volume. As primeiras citações sobre a região são do século 7 A.C. com um vinho de nome Acinatico, produzido com uvas semi desidratadas na região de Valpolicella, que pode ter dado origem ao Amarone, antes um vinho doce, que tornou-se amargo e seco. A ascensão como área produtora aparece a partir de 1500 com a expansão e a fama dos vinhos de Vicenza, Treviso e Valpolicella. Vinhos notáveis ​​foram produzidos em Valpolicella desde os tempos antigos,  mas o vinho de Verona não foi comercializado como Amarone antes de 1953 e estabeleceu-se como DOC em 1968. Acredita-se que o rótulo Amarone foi criado por Adelino Lucchese em 1936.

Um vinho raro, porém acessível com rígidas regras de produção.

Vinhos de Amaroni

Uvas

O Amarone é um vinho obtido através da fermentação das uvas secas Corvina, Corvinone e Rondinella nascidas em Valpolicella.

A Corvina é uma variedade de uva preta que determina mais o aroma e sabor do Amarone do que propriamente sua cor. Seus aromas lembram pimenta e frutas maduras. Tem formato médio e alongado. Tem boa estrutura, acidez e taninos harmoniosos.

A Corvinone foi por muitos anos considerada Corvina. Em 1993, no entanto, passou a ser considerada varietal. De coloração mais profunda, lembrando a plumagem do corvo e casca escura coberta de flor, a Corvinone emprega mais fineza e equilíbrio ao vinho. Tem aromas de tabaco e não é muito adequado ao appassimento devido a dificuldade em amadurecer.

Já a Rondinella tem cor preta azulada e uma grande capacidade de reter açúcar, o que eleva o teor alcoólico e enche o vinho de aromas. Apresenta taninos suaves e estrutura complexa. O Amarone é por fim, um vinho elegante, perfumado com grande teor alcoólico com taninos densos porém suavizados pelo envelhecimento.

Vinhos de Amaroni

Terroir

Valpolicella tem uma extensão de 25 km, de oeste a leste, e 12 km, de norte a sul. A cidade de Verona fica no meio sul de um complexo sistema de vales que partem do norte (Monti Lessini) ao sul. O rio Adige limita Valpolicella em seus lados oeste e sul.

A presença das cordilheiras e da vasta porção de planícies interferem nas ​​variações de temperatura entre o verão e o inverno, atenuadas pela brisa do Lago de Garda e da zona costeira bastante quente durante o verão. O solo e o clima ameno e não muito chuvoso nessa área têm papel fundamental na desenvoltura das vinhas.

Existem três subzonas geográficas: Clássico, Valpantena e  a zona estendida Amarone.

Todas ficam na província de Verona e incluem alguns municípios distintos. A Clássico inclui o território dos municípios de Fumane, Marano, Negrar, Sant’Ambrogio e S. Pietro in Cariano. Valpantena inclui os municípios de Grezzana, limitado ao povoado de Stallavena, e Verona, limitado aos povoados de Marzana, Quinto di Valpantena, Santa Maria di Stelle, San Felice Extra. E a Zona Estendida além dos municípios presentes na Clássica incluem Dolcè, Verona, S. Martino Buon Albergo, Lavagno, Mezzane, Tregnago, Illasi, Colognola ai Colli, Cazzano di Tramigna, Grezzana, Pescantina, Cerro Veronese, S. Mauro di Saline e Montecchia di Crosara.

O Amarone do Clássico tende a ser o mais elegante e aromático, as versões do Valpantena são geralmente mais leves e frutadas, enquanto a chamada zona estendida na fronteira com o Soave tende a produzir vinhos mais ricos com um nível de álcool mais alto.

Produção

A área de produção de Amarone cobre a área do Piemonte da província de Verona quase até à fronteira com a província de Vicenza. O território  adequadamente ventilado, luminoso, é favorável à produtividade das vinhas.

O estilo Amarone se desenvolveu à medida que os enólogos buscavam uma forma de aumentar o corpo,  a complexidade e o teor alcoólico de seus vinhos. Esses três pilares do vinhedo Valpolicella não são conhecidos por sua profundidade específica, já que apenas Corvina é capaz de produzir vinhos com muito corpo, uma deficiência agravada pelas condições frescas de cultivo do oeste do Vêneto. Para concentrar os açúcares naturais e aromáticos nos vinhos Valpolicella, os produtores locais começaram a secar suas uvas após a  colheita, para remover a água das bagas, mantendo a doçura e o sabor.

Esta técnica teve muito sucesso, embora inicialmente tenha sido usada para produzir estilos de vinhos mais doces, como os agora conhecidos como Recioto Della Valpolicella. Os primeiros vinhos Amarone eram vistos como erros. Amarone vem da palavra italiana Amaro ( amargo), completada por um sufixo que denota tamanho e volume impressionante. Quando comparado ao doce Recioto que os primeiros amarones deveriam ser, este nome é inteiramente lógico.

As uvas são colhidas em cachos inteiros e mantidas em câmaras de secagem, com temperatura amena e baixa umidade onde permanecem entre três semanas e três meses a partir de 1o de dezembro. Tradicionalmente, as uvas eram secas nas prateleiras utilizadas para o cultivo de bicho-da-seda, chamadas arèle. Esta prática encontra-se totalmente abandonada, e as adegas modernas dispõem de compartimentos adequados (frutaios), devidamente ventilados, onde as uvas repousam em caixotes baixos de plástico e estão protegidos do risco de umidade que provoca a formação de bolores. O alto teor de açúcar das uvas significa um alto potencial de álcool, portanto, uma fermentação completa resulta em um vinho forte com 14 a 18% de álcool por volume.

Vinhos de Amaroni

Envelhecimento

O vinho é envelhecido em barris de carvalho por pelo menos 24 meses a partir de 1o de janeiro após a colheita, antes do lançamento comercial. Para o Riserva prevê-se um envelhecimento mínimo de 48 meses calculado a partir de novembro do ano da colheita.

Amarone passa um mínimo de dois anos na madeira, embora possa permanecer até nove ou 10 em casos raros (Quintarelli, Zyme). Os barris variam do carvalho francês e eslavo ao castanheiro, cereja e até acácia. Barricas mais novas e menores, geralmente de carvalho, são comumente usadas e têm um efeito distinto tanto no aroma quanto na textura em particular, embora pareça haver um retorno às notas mais sutis e temperadas promovidas por madeiras maiores e mais velhas.’

O resultado desta atividade é responsável pelo aspecto surpreendentemente amplo de aromas e sabores típicos do Amarone de hoje. Três estilos dominam a produção atual. A versão mais simples, geralmente com menos envelhecimento da madeira, mostra seu lado mais amigável. Muitos acreditam que Amarone está melhor bebido por volta de seu 10º aniversário, quando o vinho ainda é redondo, macio e harmonioso.  Lotes menores das frutas mais finas de um produtor são fermentados separadamente e frequentemente recebem um envelhecimento extra em madeira; esta versão ‘premium’ ou Riserva é capaz de durar cerca de 20 anos em garrafa. Finalmente, a interpretação mais ‘modernista’ de Amarone adota um estilo de vinho mais concentrado, mais duradouro e menos oxidativo através do uso de appassimento controlado e principalmente barris de carvalho novos menores (225L ou 500L).

Amarone Della Valpolicella DOC e DOCG

A primeira comercialização de uma garrafa de Amarone della Valpolicella data de 1953. A delimitação da área de produção e o progresso das técnicas de vinificação do vinho Amarone della Valpolicella em 1968 oficiou a aprovação da primeira especificação de produção e o reconhecimento do DOC. Com o intuito de proteger a identidade dos diferentes tipos incluídos na denominação “Valpolicella”, decretos ministeriais específicos foram adotados em 2010, onde cada área ficou  autônoma .

O vinho DOCG Amarone della Valpolicella obteve o reconhecimento da Denominação de Origem Controlada e Garantida a 24 de março de 2010.

Amarone é um vinho  que se obtém por fermentação de uvas secas de vinhas típicas da Valpolicella, nomeadamente a Corvina 45-95%, a Rondinella 5-30% e a Corvinone até 50% máximo em substituição de Corvina. No lote são permitidos até 25% de variedades de uvas pretas, autorizadas para a província de Verona , das quais até 15% são genéricas não aromáticas e 10% autóctones de Valpolicella. Apenas 60% do total dessas castas podem ser apassimentadas, os outros 40% devem ser vinificados normalmente. é obrigatório a indicação do ano de produção das uvas. Os estilos dos vinhos podem ser Padrão, Classico, Valpantena e Riserva.

Amarone della Valpolicella padrão pode ser feito de qualquer lugar dentro da zona mais ampla de Valpolicella, mas aqueles das subzonas clássico e Valpantena viticulturalmente superiores podem ser rotulados como tal.

Características

O Amarone é um vinho onde a fermentação continuou até que todos os açúcares fossem consumidos. É um vinho de cor rubi-granada, com reflexos alaranjados, límpido , com grande corpo e estrutura. O teor de álcool é geralmente alto, em alguns casos até muito alto, embora a DOC preveja um teor de álcool mínimo de 14% em volume. A presença de álcoois de açúcar e substâncias extrativas em grandes quantidades por consequência da secagem de uvas o torna um vinho macio e agradável . Os taninos são geralmente muito densos, suavizados pelos anos de envelhecimento em madeira e elegantes com final longo e certo dulçor, percebe-se um amargor refinado. No olfato é intenso, encorpado e com aromas de frutas negras maduras, especiarias como baunilha, cravo e canela, tabaco, chocolate e couro. Pode -se perceber café e caramelo em alguns rótulos. São vinhos apaixonantes.

Vinhos de Amaroni

Harmonização

Beber um Amarone é sempre uma experiência marcante. Sua complexidade sugere  alimentos ricos para equilibrar com o envelhecimento do carvalho por pelo menos dois anos, ou até mais, chegando a 10 anos em alguns casos. Altos níveis de álcool e açúcar tornam o vinho uma combinação laboriosa com a comida e, devido ao enorme aumento na produção, Amarone teve que encontrar um lugar à mesa para acompanhar as mudanças de estilo de vida do consumidor.

Há quem prefira acompanhar um momento de relaxamento, onde se discutem as coisas boas da vida. Nesse quesito não há nada melhor do que um Amarone envelhecido, o chamado Vino da Meditazione.

Para os amantes da boa mesa, devem ser combinados com receitas igualmente relevantes, classicos de Vêneto, como sopa de abóbora e fígado de frango assado ou ‘lasagnette’, macarrão feito à mão com ovo temperado com molho de carne.

Para quem prefere iguarias, o Pastissada de Caval é o indicado. Antigo ensopado de carne de cavalo que hoje é uma especialidade da cozinha veronese combinado com polenta cremosa. O Guisado de Amarone, feito com carne refogada que com cozimento prolongado, particularmente adequado para cortes de carne vermelha menos nobre, partes musculares com gordura e molho espesso a base de amarone.

Queijos maturados e massa de grano duro com molho de carne (ragù), geralmente feitos com carne de pato, às vezes com cogumelos e ervilhas, ou simplesmente com manteiga derretida.

Evite alimentos muito gordurosos e apimentados.

O Amarone é um vinho de destaque, e mesmo sendo feito no estilo mais moderno para consumo imediato não é um vinho trivial, é um vinho italiano apaixonante para ocasiões maravilhosas.

Sobre Deyse RibeiroDeyse Ribeiro é natural de Minas Gerais, mas vive na Toscana desde 2007. Fez curso de sommelier na FISAR, master em Wine Expert (Academia del Gusto) e Guia Enológica na Itália. É empresária, guia de turismo, especialista em turismo de experiência na Itália, além de editora do Portal Tour na Itália, e deste site.

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