Vinho Italiano

Colinas de Prosecco – Patrimônio da Humanidade

História do Prosecco

No início do século XVI, em Trieste, já se falava de um vinho consumido desde a antiguidade, o “Ribolla”. Plínio, o Velho, conhecido como apóstolo da ciência romana, já elogiava as qualidades medicinais desse vinho, assim como Livia, esposa do imperador. O vinho era então conhecido pela população eslovena como Prosegker ou Prosekar e era cultivado na costa do Adriático. Os nomes dos dois vinhos têm origem comum porque a região da Dalmácia foi governada pela República de Veneza entre 1420 e 1797. Prosecco e Prošek surgiram a partir do esloveno prozek, que significa “caminho pela floresta”.

A necessidade de distinguir o Ribolla de Trieste de outros vinhos do mesmo nome, levou  a uma mudança da nomenclatura, no final do século XVI. Seguindo um suposto local de produção na antiguidade, o vinho foi denominado “castellum nobile vinum Pucinum”, nome do castelo perto da aldeia de Prosecco.

Em 1593, o inglês Fynes Moryson, em sua visita ao norte da Itália, fez a primeira menção ao Prosecco, usando a grafia Prosecho e avalia: “Histria é dividida em Forum Julii e Histria, propriamente dita… Aqui cresce o vinho Pucinum, agora chamado Prosecho, muito celebrado por Plínio.”

Colocando o Prosecco entre os grandes vinhos da Itália, em 1754 a nova grafia aparece em um poema chamado “Il Roccolo Ditirambo”, escrito por Aureliano Acanti que no início diz: “Ed ou ora immollarmi voglio il becco Con quel mela romatico prosecco. Di Monteberico questo perfetto prosecco eletto ci da ‘lo splendido nostro Canonico”, ou melhor, “E agora eu gostaria de molhar minha boca com aquele Prosecco com seu buquê de maçã. De Monteberico este prosecco favorito perfeito Nosso Padre nos dá.”

O método de vinificação distintiva do Prosecco original, espalhou-se em Gorizia, depois, através de Veneza para Dalmácia, Vicenza e Treviso.

O primeiro a produzir comercialmente espumantes a partir da uva Prosecco foi o químico e enólogo António Carpenè, que fundou a casa Carpenè-Malvolti em 1868 e, mais tarde, em 1876, a Scuola di Viticoltura ed Enologia de Conegliano.

Desde os anos 1930 havia estudos para se delimitar uma área de produção. Após a delimitação, foi fundado o Consorzio di Tutela del Prosecco di Conegliano e Valdobbiadene, por 11 produtores, em 1962; a regulamentação da Denominação de Origem Controlada Prosecco (DOC), foi concedida para 15 municípios, abrangendo vinhedos localizados entre Conegliano e Valdobbiadene ao norte de Treviso em 1969. Fora da Doc, em uma vasta área  que chegava a incluir parte do Friuli, os Proseccos produzidos ostentavam a denominação IGT (Indicazione Geografica Tipica).

A região se beneficiou com a tecnologia e as novas formas de produção, seus Proseccos ficaram cada vez mais refinados e complexos, as borbulhas mais persistentes, os aromas mais presentes, e o que era o “primo pobre do Champanhe” garantiu com a DOCG, o conteúdo de uma  garrafa que merece ser saboreado sozinho, em vez de funcionar apenas como ingrediente de um dos drinks mais tradicionais da Itália, o Bellini.

IGT, DOC e DOCG

Nas décadas de 1980 e 1990, o Prosecco atingiu tamanha popularidade que era exportado para todo o mundo e pode-se dizer que, com essa produção em larga escala, a qualidade, de maneira geral, nivelou-se por baixo e a fama adquirida pela bebida não foi das melhores.

Até a safra de 2008, o Prosecco era protegido como DOC na Itália, como Prosecco di Conegliano-Valdobbiadene, Prosecco di Conegliano , Prosecco di Valdobbiadene e Prosecco di Colli Asolani.

A área de produção do Prosecco abrange cinco províncias do Vêneto – Treviso, Veneza, Vicenza, Pádua, Belluno – e quatro de Friuli Venezia Giulia – Gorizia, Pordenone, Trieste e Udine, todas situadas no nordeste da Itália.

Em meados de 2009, essas duas áreas foram promovidas ao status DOC. Para proteger ainda mais o nome, uma associação de cultivadores tradicionais de Prosecco defendeu um status de denominação de origem protegida (DOP) para o Prosecco do Norte da Itália ao abrigo da legislação europeia. Assim, desde janeiro de 2010, Prosecco, não é mais o nome de uma variedade de uva, mas exclusivamente uma designação de uma denominação de origem. A uva passou a chamar-se Glera.

As áreas DOC, com vinhedos mais antigos e colheita manual passaram a status DOCG (Asolo e Valdobbiadene Conegliano) e as áreas IGT, vinhedos de alta produtividade de perfil mais genérico, puderam se qualificar como DOC. A reorganização na produção de Prosecco, categorizada por qualidade, facilitou o entendimento do consumidor acerca do produto.

Hoje, além da Itália, os espumantes da uva Glera (algumas vezes chamados erroneamente de Prosecco) são produzidos na Eslovênia, Croácia, Argentina, Austrália e Brasil.

Produção

O rendimento por hectare, a graduação alcoólica mínima e especificações de cultivo e vinificação são algumas das normas exigidas pela Denominação de Origem. Entre elas também está a definição de quais variedades são permitidas na produção e suas porcentagens.

Um Prosecco deve conter, no mínimo, 85% de Glera em sua composição. Essa variedade, que amadurece no final do período da colheita (primeiras semanas de setembro), pode ser somada a 15% de outras específicas: Verdiso, Bianchetta Trevigiana, Perera, Glera Lunga, Chardonnay, Pinot Bianco, Pinot Grigio e Pinot Nero, também conhecida como Pinot Noir. A utilização dessas variedades pode ser de apenas uma ou mais combinações, desde que não ultrapassem a porcentagem exigida.

Todas essas uvas deviam ser vinificadas em branco, pois a denominação não permitia exemplares do tipo rosé ou tintos. Porém, em 2021, o governo italiano aprovou a produção de Prosecco rosé com 15% de Pinot Noir.

Elaborado pelo método Charmat, que consiste na segunda fermentação realizada em tanques, e com o sur lie (contato com as borras) permitido, o Prosecco pode ser classificado quanto ao teor de açúcar residual, na sua denominação de origem como Brut, Extra-Dry, Seco ou Demi-Sec. No caso do Rosé, Extra Dry e Brut Nature.

Colinas de Prosecco - Veneto - Itália

Terroir

O termo “Rive” indica, no dialeto local, as encostas das colinas íngremes que caracterizam o território. É como uma pirâmide, na base estão os Proseccos DOC e acima o Conegliano Valdobbiadene Prosecco Superiore DOCG. O Rive destaca as diferentes expressões do terroir.

Dentro da área Superiore, a nova legislação manteve a já existente sub-região de Cartizze – área mais nobre entre todos os vinhedos de Prosecco Superiore. São apenas 106 hectares de vinhedos, divididos entre 160 proprietários, localizada nas colinas íngremes entre San Pietro di Barbozza, Santo Stefano e Saccol, em Valdobbiadene que, de acordo com o Consórcio, é uma espécie de Cru da DOCG.

Na denominação existem 43 Rives, cada um com sua peculiaridade de solo, exposição e microclima. As vinhas da região do Norte da Itália estão localizadas entre os Alpes e os Apeninos, com influência dos lagos e rios, como o Pó. As montanhas da região formam uma barreira de proteção contra a chuva. O solo é normalmente ondulado e o clima é moderado: Continental no interior e mediterrâneo nas encostas. Verões quentes , secos e curtos e invernos  longos e frios.

Em Conegliano Valdobbiadene, cada uma delas tem características únicas e próprias da pequena área produtora correspondente. Os Rive são feitos exclusivamente de uvas cultivadas no local e vinificados com foco em incutir as qualidades que cada terroir específico pode conferir ao vinho. O aspecto interessante de degustar Rives comparativamente está justamente em poder conhecer diferentes nuances da zona de Conegliano Valdobbiadene através desses vinhos. A produtividade nos Rive é limitada a 13 toneladas por hectare. Além disso, a colheita das uvas obrigatoriamente deve ser manual e a safra precisa estar indicada no rótulo.

Colinas de Prosecco - Veneto - Itália

Características

As bagas da uva Glera são esverdeadas, algumas vezes apresentando tons de branco e lilás. É comum que as videiras sejam muito produtivas, dando muitos frutos, porém amadurecem tardiamente.

Quando vinificados, dão origem a espumantes de corpo leve, com coloração amarelo palha bastante translúcida com reflexos esverdeados e brilhantes. A perlage – ou seja, a camada de borbulhas do espumante – varia de acordo com a qualidade do produto e costuma ser constante e persistente.

Com relação aos aromas, nota-se a presença de frutas brancas (pêssego, maçã verde, pêra, melão), limão siciliano, flores brancas e mineralidade, com eventuais nuances de iogurte e nata. No paladar é frutado, leve e refrescante.

Os espumantes da uva Glera podem variar de acordo com a quantidade de açúcar. Essa informação está contida no rótulo.                                                                         Brut: O mais moderno e conhecido internacionalmente, apresenta aromas típicos de frutas cítricas, com notas vegetais e toque de pão, com bastante vivacidade no palato. Tem entre 0 e 12 gramas de açúcar residual por litro.

Extra Dry: Essa é a versão clássica do Prosecco. Apresenta notas de maçã e pêras, com toques de frutas cítricas e notas florais. Tem entre 12 e 17 gramas de açúcar residual por litro.

Dry: Tipo menos comum de Prosecco, marcado principalmente por notas florais e de frutas como pêssegos e maçãs. Tem entre 17 e 32 gramas de açúcar residual por litro.

Os Superiore di Cartizze são espumantes suntuosos, de coloração intensa e complexidade de aromas, que vão desde maçãs e peras, até damascos, frutas cítricas e rosas, com notas amendoadas. No palato, costumam ser redondos e apresentar toques salinos e borbulhas delicadas que ressaltam seus sabores.

Colinas de Prosecco - Veneto - Itália

Harmonização

A uva Glera é bastante versátil. É comum que sejam servidos antes de refeições, aproveitando um dia de calor com amigos,  para um brinde de  Ano Novo e acompanhado de pratos com média intensidade de sabor.

Entradas como carnes curadas: presunto, pastrami, jamon; e castanhas e foccacia., são boas opções de acompanhamento.

Para combinar nas refeições principais, experimente com frango, camarão, tofu, carne de porco e com comida asiática!! Principalmente apimentadas e condimentadas. Na contramão, mas mantendo a percepção de sabores, prove com sushis e sashimis.

Não esqueça dos queijos! Parmesão, muçarela, gorgonzola, ricota, emmental e queijo de cabra.

E sobremesa? O tradicional panetone é a melhor escolha.

Entender os vinhos em qualquer região da Itália requer tempo, tamanha a quantidade de uvas, denominações, regiões e sub-regiões produtoras. O Vêneto não é diferente. É um lugar onde a experimentação e o talento dos produtores vêm sendo postos à prova e ganhando reconhecimento no mercado internacional. Sim, porque internamente, ninguém tem dúvidas: qualquer hora é hora de brindar com Prosecco! O viajante curioso só tem a ganhar!

Sobre Deyse RibeiroDeyse Ribeiro é natural de Minas Gerais, mas vive na Toscana desde 2007. Fez curso de sommelier na FISAR, master em Wine Expert (Academia del Gusto) e Guia Enológica na Itália. É empresária, guia de turismo, especialista em turismo de experiência na Itália, além de editora do Portal Tour na Itália, e deste site.

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