Vinho Italiano

Barbaresco – O Príncipe do Piemonte

A área de Langhe em Piemonte é conhecida por suas pitorescas colinas e vinhos tintos de classe mundial, ganhando o reconhecimento da UNESCO por sua beleza natural e também por sua tradição vinícola distinta. Se Barolo é considerado o rei do vinho italiano, podemos dizer sem dúvida que Barbaresco é um dos muitos príncipes. Embora Barolo seja tipicamente a atração principal, o Barbaresco, seu irmão gêmeo, faz muito sucesso na região. No Piemonte tem mais DOCGs que qualquer outra região italiana, o todo 18 e está empatado com a Toscana em número de DOCs, 14, sem IGPs.

As colinas Langhe produzem vinhos há milhares de anos, desde a época romana. Historicamente, a população preferia vinhos doces, e Nebbiolo, sendo uma uva difícil de crescer, ficou em segundo plano em relação às uvas locais como Barbera, Dolcetto e Freisa. No início de 1800, o Piemonte era governado pelo reino francês de Sabóia, e os nobres locais, influenciados pelos vinhos franceses, começaram a inovar. Os Marchese e Marchesa Falletti de Torino trouxeram um tecnólogo francês de vinhos, Louis Oudart, para suas propriedades em Serralunga e La Morra para introduzir práticas vitivinícolas como envelhecimento em barris e controle de temperatura. Um pouco mais tarde, Camillo Benso, o Conte di Grinzane, contratou Oudart para desenvolver um estilo de vinho mais parecido com os vinhos tintos contemporâneos de Bordeaux, secos e envelhecidos em barris.

Inicialmente, as uvas cultivadas na zona de Barbaresco eram vendidas aos produtores de Barolo para inclusão em seus vinhos.  No final do século 19, Barbaresco foi criado como um nome de vinho próprio quando a Cantina Sociale di Barbaresco foi fundada. Domizio Cavazza, diretor da Real Escola Enológica de Alba e residente de Barbaresco, fundou a  cooperativa, a Cantine Sociali, reunindo nove proprietários de vinhas Barbaresco para fazer vinho no castelo local que possuía. Ele entendeu bem as diferenças entre uma mesma uva, a Nebbiolo, cultivada nas diferentes áreas de Barolo e Barbaresco e, pela primeira vez, reconheceu-a no rótulo do vinho.

Após um bom começo, no início do século XX, os produtores de vinho da região sofreram vários contratempos, primeiro, a filoxera, seguidos de duas guerras mundiais, separadas pela grande depressão. A Cantine Sociali foi encerrada nos anos 1930 por causa das regras econômicas do período. Quando a recuperação do pós-guerra começou, os vinhos Barolo e Barbaresco retomaram sua alta qualidade. Ao final dos anos 1950 Barbaresco ganhou vida novamente, graças a uma nova geração de enólogos dinâmicos, incluindo Bruno Giacosa e Angelo Gaja, que começaram a comercializar Barbaresco internacionalmente com algum sucesso. O pároco local, Don Fiorino Marengo, teve um papel importante ao fundar a adega cooperativa Produttori del Barbaresco, a sucessora da visão original de Cavazza. tornando-se uma das adegas mais respeitadas da Itália e inspirando mais proprietários de terras em Barbaresco a retornar aos seus vinhedos e a fazer vinho de qualidade. Barolo e Barbaresco se tornaram vinhos DOC em 1966 e receberam o status de DOCG em 1980.

Uvas

A Nebbiolo, conhecida também por Aka Spanna no norte do Piemonte, Chiavennasca na Lombardia e Picotener no Vale de Aosta. A maior uva nativa da Itália tem cor grená com um matiz laranja revelador. Rico em acidez, taninos e álcool e amplo potencial de envelhecimento. Os aromas e sabores revelam flores como rosa vermelha e violeta. E os sabores remetem à cereja vermelha azeda, cranberry, chá, tabaco, alcaçuz, sândalo, trufa.

Ambas as denominações Barbaresco e Barolo são feitas a partir da uva Nebbiolo. É uma variedade de uva vermelha mais famosa do Piemonte, ao lado da Barbera e da Dolcetto. A história da uva remonta ao século XII. Ao longo dos séculos, a uva se adaptou ao solo do Piemonte e hoje é responsável por dois dos vinhos mais incríveis da Itália.

A uva Nebbiolo é pequena e tem casca fina. É uma uva potente que produz vinhos poderosos. Apresenta aromas expressivos, um elevado nível de taninos e acidez equilibrada. Ela é a primeira a brotar na primavera e a última a ser colhida no outono, encontrada principalmente na parte sul, onde há mais sol e condições mais secas.

Barbaresco é um ótimo vinho tinto feito com uvas 100% Nebbiolo cultivadas em vinhedos localizados dentro e ao redor da cidade de Barbaresco, de onde leva o nome, e nas vilas de Treiso e Neive, na região de Langhe, no Piemonte. Os vinhos são muito distintos, com altas notas aromáticas, sendo mais elegantes e acessíveis.

Terroir

Embora próximos, uma diferença entre Barolo e Barbaresco está no terroir. A zona de Barbaresco fica próxima ao rio Tanaro. O rio gera temperaturas matinais mais quentes, por isso as uvas amadurecem mais cedo. As diferentes porcentagens de cálcio, marga e veios arenosos e a sua combinação complexa de argila calcária, conferem a cada encosta características peculiares, que se refletem nos vinhos produzidos. o solo de Barbaresco é mais rico em nutrientes e, por isso, as vinhas não produzem tanto tanino como os vinhos do Barolo. Barbaresco exibe qualidades semelhantes às do Barolo; Aromas a rosas, perfume e cereja com final persistente. Mas é mais fresco, bebível mais cedo, normalmente com menos taninos e requer apenas 2 anos de envelhecimento. Ambos os vinhos nem sempre são encorpados e de cor escura. Mas eles são complexos e bem estruturados.

O Langhe são colinas pré-alpinas no sul do Piemonte. Na área de Barbaresco, Nebbiolo é cultivado entre 200 e 400 metros acima do nível do mar. O clima É continental, com verões quentes, invernos frios e frequentemente com neve, primaveras e outonos amenos. Um setembro seco costuma ser sinônimo de boa colheita. A exposição ao sol é tão importante quanto a composição do solo e o Nebbiolo é sempre plantado nas encostas mais expostas voltadas para o sul, sudoeste e sudeste.

DOCG

A partir do final do século 19, houve tentativas de classificar os vinhedos da região em crus semelhantes à Borgonha, com base nas áreas que produziam os melhores vinhos. Barbaresco se tornou a primeira região vinícola da Itália a mapear oficialmente seus crus e incorporou essas delimitações de vinhedos em seu DOCG. O vinho Barbaresco obteve o estatuto DOCG, Denominazione di origine controllata e Garantita em 1980 e o “disciplinare”, o regulamento que indica o processo de vinificação e enumera as características que o vinho deve ter, estabelece que os vinhos Barbaresco devem ser envelhecidos por um mínimo de 24 meses, (para domar os taninos) com pelo menos 9 meses em carvalho, antes do lançamento, e envelhecido por pelo menos 48 meses para ser rotulado como “Riserva”. Barbaresco Riserva é feito apenas em safras excepcionais.

O envelhecimento e obviamente a proveniência das uvas são as principais diferenças entre o Barbaresco e o Barolo. Os vinhos Barbaresco exigem um tempo mais curto, mas isso não significa que Barbaresco não seja um vinho digno de envelhecimento, eles provaram em mais de uma ocasião, resistir ao envelhecimento magnificamente. O teor alcoólico mínimo legal exigido para Barbaresco é de 12% .

Em 2007, o Barbaresco Consorzio foi o primeiro a introduzir a Menzione Geografiche Aggiuntive (menções geográficas adicionais) também conhecida como MEGA ou subzonas ; havia 65 subzonas oficialmente aprovadas, com mais uma aprovada em 2010, que elevou o número final para 66. O principal objetivo era colocar limites oficiais para alguns dos crus mais famosos, a fim de protegê-los de expansão e exploração injustificadas. Após a introdução de subzonas, o termo Vigna (italiano para vinhedo) pode ser usado nos rótulos após seu respectivo MEGA e somente se o vinhedo estiver dentro de um dos MEGA aprovados.

Produção

A área de origem de Barbaresco, a poucos quilômetros ao norte e leste da cidade de Alba, é pequena: 4 Municípios, Barbaresco, Neive, Treiso, San Rocco e cerca de 700 hectares de Nebbiolo para um total de 4 milhões de garrafas por ano, isso é menos de uma garrafa por residente da região do Piemonte, na Itália.

A aldeia de Barbaresco é o coração histórico da denominação e o centro de produção Nas encostas íngremes das colinas, literalmente cobertas de vinhas, cultivam-se três variedades principais: Nebbiolo, Dolcetto e Barbera. A Nebbiolo está sempre plantada nas melhores posições onde o solo, a exposição e o trabalho humano, em sinergia quase mítica, criam a magia de Barbaresco.

Os vinhedos ao redor da cidade de Barbaresco representam 45% da produção de Barbaresco, com muitas das maiores vinícolas da área localizadas na cidade. Os vinhos desta zona tendem a ser relativamente leves na cor e corpo, mas muito bem estruturados e aromáticos.

Neive, produz uma grande variedade de estilos, desde o mais jovem e fresco até o encorpado. Esta região é conhecida por fazer algumas das expressões mais poderosas e tânicas de Barbaresco. Neive é responsável por 31% da produção de Barbaresco.

Treiso detém os vinhedos de maior altitude da denominação, com as maiores variações de temperatura diurna. Estes vinhos são mais florais, frescos e elegantes. Responde por 20% da produção da zona de Barbaresco.

Características

O típico vinho Barbaresco tem buquês de rosas ou violetas com notas de cereja, trufas, especiarias e alcaçuz. Tem presença de madeira, frutas vermelhas e noz moscada. Esses aromas podem modificar devido ao amadurecimento do vinho.

Quando jovem, o vinho é muito tânico, embora não tão duro como o Barolo, os taninos que amaciam com o envelhecimento liberam notas de fumaça. Em boca é seco e estruturado, apresentando diferenças onde são produzidos.  Os sabores mais terrosos como couro, tabaco e alcatrão mostram a intenção do corpo cheio mantendo o  paladar sempre elegante com taninos presentes.

A temperatura de serviço varia de 16 a 18 graus quando Riserva.

Harmonização

O Langhe é uma terra de grandes vinhos, carnes nobres, trufas brancas, excelentes queijos, um dos mais famosos paraísos gastronômicos e vínicos do mundo. Tendo essas características, e para valorizar mais a sua apreciação, indicamos refeições à base de trufas e cogumelos secos devido a sua qualidade terrosa.

Os queijos devem ser mais maturados Parmigiano Reggiano, Pecorino Vecchio e Grana Padano.

As carnes de caça acompanham bem o Barbaresco e são variadas na região. Experimente os pratos típicos: Carne Cruda, Manzo Stufato alla Piemontese (ensopado de carne) ou Stufato di Coniglio (ensopado de coelho). Assados de cordeiro, javali e cervo também são bem procurados.

Sobre Deyse RibeiroDeyse Ribeiro é natural de Minas Gerais, mas vive na Toscana desde 2007. Fez curso de sommelier na FISAR, master em Wine Expert (Academia del Gusto) e Guia Enológica na Itália. É empresária, guia de turismo, especialista em turismo de experiência na Itália, além de editora do Portal Tour na Itália, e deste site.

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