Vinho Italiano

O carro Louco de Florença e a vendemia

Todo quarto sábado do mês de setembro em Florença ocorre o desfile do Carro Mato. Este ano o desfile será dia 24 de setembro.

O carro matto é uma antiga tradição que acontece em Florença no final do mês de setembro de cada ano. E hoje os turistas que estão na cidade têm a oportunidade de testemunhar a chegada do Carro Matto ao centro de Florença, proveniente da vizinha área de produção de Chianti chamada Chianti Rufina. O Carro Matto (tradução literal em português seria “carro louco”) chega puxada por um par de bois brancos e acompanhada por um desfile em trajes históricos completos com tambores, bandeiras e até um canhão!

História: Mas em que consiste este evento?

Desde os tempos antigos, o vinho que corria nas tabernas florentinas vinha em grande parte da área de Chianti. De todo o Chianti, vagões cheios de garrafas de vinho vinham à cidade para encher os copos dos florentinos. Esse costume era tão arraigado e importante que se tornou um compromisso imperdível que  virou um símbolo de “boa sorte”, de “bom augurio” para desejar boas vendas e um bom ano.

Hoje, este evento pretende celebrar a centenária tradição toscana de produção de vinho mas, ao mesmo tempo, pretende recriar a chegada do vinho à cidade. Desde o século XIV, o vinho era engarrafado e armazenado em garrafas de vidro chamadas frascos  – fiaschi devido à sua linha redonda em forma de pêra e pescoço alongado. São precisamente esses famosos frascos redondos que se tornaram, ao longo do tempo, o emblema do vinho toscano no mundo. Eles contêm exatamente 3/4 de um litro de vinho e foram produzidos no coração de Florença: a esquina entre a via Condotta e a via dei Calzaiuoli era conhecida como “Canto dei Fiascai” precisamente porque havia muitas oficinas e armazéns de artesãos florentinos.

O “fiascaio” – ou aquele que produzia os frascos, na verdade – criou tanto a garrafa de vidro quanto a camada de palha tecida ao redor da metade inferior e visava tanto proteger a garrafa de possíveis quebras, quanto atuar como isolante térmico para manter intactas as qualidades do vinho.

Enquanto as garrafas de vidro eram feitas na cidade de Florença, o vinho era produzido ao ar livre na zona rural circundante e o Carro Matto mostra como as garrafas eram empilhadas com maestria em uma pirâmide para serem transportadas com segurança para onde eram enchidas. São mais de 2000 garrafas no carrinho e hoje, como então, poucas pessoas conseguem criar esta obra-prima da arquitetura artesanal! Aqui o Carro Matto recria o momento da chegada à cidade vinda do campo da carreta com garrafas cheias do novo vinho, recebido com o mesmo entusiasmo e alegria de então.

Durante os anos da República Florentina, a tradição queria que o primeiro carro da temporada se dirigisse para a Piazza della Signoria em frente à igreja na via dei Calzaiuoli para uma bênção, juntamente com os governantes da cidade que receberam as primeiras garrafas de vinho como um presente. Esta é precisamente a tradição que é encenada todos os anos no final de setembro, partindo da cidade de Rufina até à zona nordeste de Florença.

Era dever da população rural, no Renascimento, a oferta dos produtos da terra para que o Senhor  de Florença desse a sua permissão de venda. Um pouco era prazer, “um pouco dever” para o povo do Val di Sieve, área de produção atual de Chianti Rufina DOCG que assim presentiava  o Senhorio com o produto principal eo mais valioso de suas terras: o vinho.

A oferta tradicional de vinho foi proferida até os dias atuais. A comemoração deste gesto nobre, ocorre no último sábado de setembro como parte do evento ” Baco Artigiano.” Na Piazza della Signoria, a comunidade de Rufina, oferece a cidade de Florença, o vinho Chianti, com as chaves do “Conte Turicchi”.

Esse carro foi chamado de “louco”, talvez porque fosse necessária uma certa loucura lúcida para empilhar e transportar milhares de frascos nas acidentadas ruelas do interior ou talvez porque, ao chegar à praça, você se jogasse em festas malucas.

No entanto, esta tradição ainda está viva e bem e todos os anos é perpetuada com uma reencenação que começa em Rufina e termina no Palazzo Vecchio com o Desfile Histórico da República Florentina.

a montagem do carro, é possível de ser admirada, visitando o Museu do vinho de Rufina

DICA: Se você for a Rufina após a chegada do Carrinho em Florença, encontrará muitas adegas abertas, onde poderá fazer visitas e degustações. Se você estiver por perto no final de setembro, recomendo que você vá ver o Carro Matto, precisamente porque Rufina permaneceu praticamente a única cidade da Toscana que conseguiu manter viva a tradição e a capacidade de empilhar frascos. pirâmide assim!

Como e onde ocorre:

Durante as primeiras horas do dia, vimos o Carrinho parado perto da Piazza del Duomo, esperando o evento principal que começa por volta das 15h30, quando começa o Desfile Histórico da República Florentina

O desfile começa no Palagio di Parte Guelfa e se junta ao Carro Matto, puxado pelo típico “Boi” da raça Chianina, na Piazza Duomo; juntos chegam ao adro da catedral, onde se realiza a benção da carroça e a oferta do vinho à autoridade religiosa e segue-se para a Igreja de San Carlo de Lombardi. A mesma oferta também é feita neste Igreja. Em seguida, a procissão segue para a Piazza della Signoria, onde os agitadores de bandeiras se apresentam diante de um grande público e o vinho é oferecido às autoridades civis.

carro-matto

PROGRAMA DE 2022:

Pode ainda haver mudanças no horário da festa, até setembro.

as 15:00 – desfile histórico da República Florentina que parte do Palácio de Parte Guelfa e vai até Via Roma e chegando a Piazza San Giovanni, próximo ao Duomo, onde encontrará com o carro as 15:30.
– Benção dos vinhos e o carro vai a Praça da Signoria.
– Na Igreja de San Carlo dei Lombardi: ocorre a oferta de um pouco de vinho as pessoas presentes
– Na piazza della Signoria- oferta de vinho

15:30-16h – exibição dos Sbandieratori e da orquestra do Corteo Storico e retorno do desfile pela via Calzaiuoli e piazza del Duomo.

Sobre Deyse RibeiroDeyse Ribeiro é natural de Minas Gerais, mas vive na Toscana desde 2007. Fez curso de sommelier na FISAR, master em Wine Expert (Academia del Gusto) e Guia Enológica na Itália. É empresária, guia de turismo, especialista em turismo de experiência na Itália, além de editora do Portal Tour na Itália, e deste site.

1 comentário em “O carro Louco de Florença e a vendemia”

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