Vinho Italiano

Os vinhos da Sardenha

A Sardenha é certamente um dos lugares mais encantadores da Itália, não só pelas belezas naturais da ilha e pelas suas antigas e ricas tradições, mas também pelos seus vinhos que representam um importante elemento dentro da sua identidade e da sua história.

Dos vinhos brancos aos tintos, é enorme a variedade de rótulos produzidos na região da Sardenha. Há extraordinários representantes da enologia da ilha, como Malvasia di Bosa e Vernaccia di Oristano.

A história da viticultura da Sardenha

De acordo com estudos e pesquisas arqueológicas, o vinho está presente na Sardenha há cerca de 5.000 anos. Os primeiros achados de ânforas e tigelas nas áreas ocupadas pelos Nuraghi, a antiga população que vivia na ilha, são desse período. Apesar da idade de todas essas descobertas arqueológicas, acredita-se que a videira foi introduzida na Sardenha pelos fenícios, durante o período em que ocuparam a ilha.

Outra importante descoberta arqueológica – que remonta ao século IV a.C, ou seja, na época romana, comprova a importância histórica do vinho na ilha italiana. Em 1984, nas proximidades do Nuraghe Arrubiu de Orrioli (província de Nuoro) foi encontrado um verdadeiro laboratório, completo, com cubas e tanques de vinho para a fermentação e para a conservação do vinho. Durante as escavações, também foram encontradas diversas sementes de uva, mas não foi possível identificar a variedade.

Pela sua posição geográfica estratégica no Mar Mediterrâneo, a Sardenha foi alvo de várias batalhas por seu território. Fenícios, árabes, romanos, cartagineses, genoveses e pisanos são exemplos de povos que por ela lutaram. Devido a isso, a viticultura e a produção de vinho foram muito influenciadas pelas tradições e culturas dos diferentes povos, passando por períodos alternados de grandes e pequenas produções.

Dentre todas essas populações, existem as que mais contribuíram para o desenvolvimento da enologia da ilha, que são os povos do Egeu e da Península Ibérica. É certamente pelas mãos dessas pessoas que foram feitas a introdução de novas e fundamentais técnicas de plantio e colheita das uvas e de produção de vinhos na Sardenha.

Muitas das famosas uvas da Sardenha – como Cannonau e Carignano – foram introduzidas pelos espanhóis, porém a herança das uvas autóctone é bastante interessante e capaz de produzir excelentes vinhos.

Um acontecimento fundamental para a viticultura da Sardenha foi representado pela promulgação da Carta De Logu. Promulgada em 1392 por Eleonora di Arborea, o documento foi fundamental para a regulamentação da viticultura até 1827. A Carta De Logu tinha entre seus objetivos o de aumentar, proteger e estimular o cultivo da vinha e da produção de vinho. Através dela, quem atentasse contra a produção estava sujeito a multas e penalidades, inclusive físicas. Quem ateasse fogo a um vinhedo ou plantasse algum sem o conhecimento das autoridades, poderia até mesmo ter as mãos cortadas como pena. Quem possuía terra e não cultivava vinhas, teve seu patrimônio tomado e transferido para quem tinha condições de fazê-lo.

Ao fim da era feudal, as propriedades rurais desapareceram e muitas das terras foram destinadas a pastagens, então Marquês de Rivarolo, em 1736, restaurou os princípios da Carta De Logu, ajudando a relançar a viticultura da Sardenha.

Com isso, os vinhos da Sardenha começaram a ser conhecidos fora das fronteiras da região, em particular o Cannonau produzido nas zonas de Nuoro, o Vermentino di Gallura, o Vernaccia di Oristano, o Malvasia di Bosa, o Monica passito, o Turned, o Moscato e o Nasco.

Após amargar um período de baixa com a chegada da temida filoxera, quando apenas as plantas que estavam em solos arenosos foram salvas, a ilha retomou com força o seu caminho em 1950.

Hoje a região nos presenteia com produções de excelência, com vinhos maravilhosos produzidos com suas uvas nativas.

 

As uvas da região

A Vermentino a Cannonau são as uvas mais famosas da ilha e com elas são feitos excelentes vinhos. Num passado recente, duas outras uvas fizeram história com safras superpremiadas: a Carignano e a Bovale.

Outras que também são comuns: Nebbiolo, Sangiovese, Montepulciano e Barbera.

A Sardenha também possui uma herança bastante rica em vinhas nativas. Na parte centro e norte da Sardenha existe uma maior produção de vinhos brancos, enquanto a produção de vinhos tintos está mais concentrada na parte sul da ilha. Além das já citadas, as principais variedades de uvas brancas da Sardenha são Malvasia Bianca , Malvasia di Sardegna , Nasco, Nuragus , Semidano , Torbato , Vermentino e Vernaccia di Oristano. Entre as castas pretas lembramos a Bovale, Caddiu , Cagnulari , Carignano, Girò, Monica e a Nieddera.

 As denominações de origem da Sardenha

Na Sardenha estão atualmente definidas 17 Denominações de Origem DOC (Denominação de Origem Controlada) e 1 DOCG (Denominação de Origem Controlada e Garantida) que á a Vermentino di Gallura DOCG.

 As 17 DOCs da Sardenha são:

  • Alghero DOC
  • Arborea DOC
  • Cagliari DOC
  • Campidano di Terralba ou Terralba DOC
  • Cannonau di Sardegna DOC
  • Carignano del Sulcis DOC
  • Girò de Cagliari DOC
  • Malvasia di Bosa DOC
  • Mandrolisai ou Sardegna Mandrolisai DOC
  • Monica da Sardenha DOC
  • Moscato di Sardegna DOC
  • Moscato di Sorso-Sennori DOC
  • Eu nasci em Cagliari DOC
  • Nuragus of Cagliari DOC
  • Sardenha Semidano DOC
  • Vermentino da Sardenha DOC
  • Vernaccia di Oristano DOC

 Essas 20 denominações (1 DOCG e 19 DOCs) respondem por 66% do vinho produzido na Sardenha. Há também as IGTs, que são vinhos produzidos com uvas nativas combinadas com as chamadas “uvas internacionais”, eles representam 15% da produção.

Os IGTs da Sardenha:

  • Barbagia IGT
  • Hills of Limbara IGT
  • Isola dei Nuraghi IGT
  • Marmilla IGT
  • Nurra IGT
  • Ogliastra IGT
  • Parteolla IGT
  • Planargia IGT
  • Província de Nuoro IGT
  • Romangia IGT

Vamos falar um pouco sobre algumas dessas denominações de origem da Sardenha.

  • Vermentino di Gallura DOCG

Gallura, um território situado na parte norte da região, é a zona mais clássica e representativa dos vinhos da ilha. Vermentino di Gallura é o único vinho DOCG da Sardenha e é extremamente interessante. Sua versão superior deve ter pelo menos 13,5% de álcool e 95% de seu volume composto pela casta Vermentino. A principal característica deste vinho de corpo médio são os aromas e sabores de amêndoa evidentes. Segundo fontes históricas, a Vermentino chegou a Gallura depois de 1850, provavelmente chegou da França depois de passar pela Córsega, onde ainda é cultivada.

Sua área de produção inclui:

  • Para a província de Olbia-Tempio, o território dos municípios de Aggius, Aglientu, Arzachena, Badesi, Berchidda, Bortigiadas, Budoni, Calangianus, Golfo Aranci, Loiri Porto San Paolo, Luogosanto, Luras, Monti, Olbia, Oschiri, Palau, S. Antonio di Gallura, S. Teodoro, S. Teresa di Gallura, Telti, Tempio Pausania e Trinità d’Agultu.
  • Para a província de Sassari, o território do município de Viddalba.

  • Alghero DOC

A denominação Alghero DOC cobre uma área retangular que começa na costa oeste da ilha, perto da cidade de mesmo nome, e se estende para o interior por cerca de 30 km.

Alghero é um recanto único da Sardenha, se destaca não apenas pelos seus vinhos, mas também por uma curiosidade linguística. Além do idioma italiano, lá também se falava o catalão, que foi levado pelos espanhóis no século XIV. Porém, com o passar dos séculos, o dialeto ganhou características próprias e hoje é conhecido como Alghero ou Algurese.

A denominação Alghero DOC surgiu em 1995 e o território coberto por ele é um dos menores dentre todas as denominações. Ela inclui tintos, brancos e rosês, muitos varietais produzidos com as uvas Torbato, Chardonnay e Vermentino (brancos); e Sangiovese, Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc e Cagnulari entre os tintos. Essa denominação também permite o uso da uva Carmenere em alguns de seus rótulos.

Todos podem ser produzidos também em versões espumantes. O Alghero DOC também inclui dois vinhos doces, um branco passito e um tinto licoroso.

A área de produção diz respeito à província de Sassari e inclui o território dos municípios de Alghero, Olmedo, Ossi, Tissi, Usini, Uri, Ittiri e, em parte, o território do município de Sassari.

  • Cagliari DOC

O Cagliari DOC foi criado em 2011, é uma junção de três antigas denominações: Malvasia di Cagliari DOC, Moscato di Cagliari DOC e Monica di Cagliari DOC. Também são vinhos produzidos com a casta Vermentino.

Cagliari sempre foi uma cidade que desempenha um papel importante na ilha da Sardenha. Apesar do nome Cagliari DOC, a área coberta pela denominação ocupa praticamente metade do sul da Sardenha e estende-se até a província de Oristano, que geralmente está associada a outra denominação, a Vernaccia di Oristano DOC.

Sua área de produção abrange 4 províncias: Cagliari, Carbonia Iglesias, Medio Campadiano e Oristano.

As áreas cultivadas

Na Sardenha, a videira é cultivada em toda a região e muitos dos vinhos DOC são produzidos em toda a ilha. Há na ilha, uma herança bastante rica de uvas originárias da própria região, e as uvas introduzidas nos últimos séculos pelas populações que controlavam o domínio, são agora consideradas uvas locais. Também há presença de uvas internacionais na ilha que são geralmente usadas na produção de vinhos que possuem um bom espaço no mercado local.

Embora se produzam diferentes tipos de vinhos em toda a região, na Sardenha existe uma certa divisão territorial no que diz respeito à preferência de produção. Na parte centro e norte há uma maior produção de vinhos brancos, enquanto a produção de vinhos tintos está mais concentrada na parte sul da ilha.

Sobre Deyse RibeiroDeyse Ribeiro é natural de Minas Gerais, mas vive na Toscana desde 2007. Fez curso de sommelier na FISAR, master em Wine Expert (Academia del Gusto) e Guia Enológica na Itália. É empresária, guia de turismo, especialista em turismo de experiência na Itália, além de editora do Portal Tour na Itália, e deste site.

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