Vinho Italiano

Barolo: O vinho rei do Piemonte

A fama do Barolo dá-se principalmente por ser feito exclusivamente da uva ícone Nebbiolo e por ser considerado um vinho sempre inovador.

A alcunha de Rei dos Vinhos mostra  um pouco da filosofia por trás de um dos vinhos mais famosos e longevos da Itália.

A tradição da Nebbiolo, uva que produz esse gigante piemontês, sugere séculos e séculos de labor e respeito às práticas ancestrais dos viticultores da região noroeste italiana.

Mesmo sendo um vinho considerado monumento, devido a sua  força e estrutura, a história de Barolo é marcada pela inovação,  sendo lapidado, pouco a pouco, por produtores visionários.

Os primeiros registros do Barolo constam do ano de 1235. A uva servia principalmente como  base e produzia vinhos inconsistentes, leves e muito adocicados, fazendo com que a predileção fosse por vinhos franceses.

No século XIX, a Itália era composta de estados semi autônomos, cada um deles controlada por um reino, a maioria pelo império austríaco. Incomodado com a falta de unidade no país e o atraso italiano comparado à  Inglaterra e França, Camilo Benso, latifundiário do Piemonte e mais à frente Conde de Cavour, teve um importante papel na unificação e na transformação do Barolo a partir de 1830.

Decidido a implementar o que havia aprendido em suas viagens, contratou o enólogo italiano Paolo Francesco Staglieno, autor do manual de vinificação do Piemonte, “Istruzione intorno al miglior metodo di fare e conservare i vini in Piemonte”. A tarefa de Staglieno era produzir vinhos de qualidade voltados ao envelhecimento e estáveis para serem exportados.

Nesse mesmo período, Juliette Colbert Di Maulévrier, filha de aristocratas franceses casou-se com o Marquês de Barolo, tornando-se Giulia Falletti di Barolo, a Marquesa de Barolo. Chegando à Itália, desenvolveu grande interesse pela filantropia e agricultura, e inconformada pela preferência dos nobres italianos por vinhos franceses, contratou o enólogo francês Louis Oudart, para ajudar viticultores locais a melhorarem suas técnicas. Oudart assegurou que as uvas fossem colhidas maduras e o rendimento fosse menor, trouxe novos equipamentos de fermentação e fez um vinho com características de Bordeaux, mais equilibrado e seco.

O Barolo, antes doce e leve, transformou-se em uma bebida presente e cheia de sabor, sendo servido nas mesas da nobreza e ganhando a reputação de Rei dos Vinhos.

Uva Nebbiolo

O Piemonte, produz alguns dos melhores vinhos italianos. Muitos apreciadores chamam-no de região dos vinhos nobres da Itália, reputação que se deve à notável varietal Nebbiolo. Seu nome é derivado de nebbia, que significa neblina em italiano, devido à neblina constante da região e também à cor da casca, um pouco enevoada. Essa uva sensível é o orgulho do Piemonte, pois em nenhum outro local ela tem tanta personalidade.

A Nebbiolo amadurece lentamente e apresenta alta qualidade. É uma uva complexa, tânica e ácida. De casca espessa, costuma produzir vinhos escuros, secos, com muita acidez e taninos exuberantes. Os vinhos italianos desta uva são considerados rústicos, pouco frutados e muito complexos. A uva Nebbiolo está na essência de três dos melhores vinhos DOCG (Denominazione di origine controllata e garantita) da Itália: Barolo, Barbaresco e Gattinara.

Vinho Barolo - Piemonte - Itália

Região

O Barolo é elaborado na região do Piemonte, província de Cuneo, e na área conhecida como Langhe, no noroeste da Itália.

Nessas colinas e encostas suaves, onde vários castelos medievais dominam a região, a uva Nebbiolo divide espaço com as árvores que produzem a avelã, outro famoso produto da região e é, também, nesses mesmos terrenos já tão prezados pelos gourmands que se esconde a trufa branca, a iguaria mais cara do mundo.

A DOCG (Denominação de Origem Controlada e Garantida) desde 1980  engloba 11 municípios e tem o  município de Barolo com DOC reconhecida desde 1966.

Mas para se chamar Barolo não basta que o vinho seja elaborado com uvas nebbiolo e que siga as rígidas normas de elaboração. As uvas têm que ser provenientes de uma destas 11 comunidades: Barolo, Cherasco, Verduno, Roddi, La Morra, Grinzane Cavour, Castiglione Falleto, Diano d’Alba, Novello e Monforte d’Alba.

Na região, existem áreas de vinhedos específicos com características que se refletem no vinho, como aromas e sabores. São os chamados “crus de Barolo”, como Cannubi, Cerequio, Brunate e Serralunga d’Alba.

A área destinada ao cultivo e vinificação tem cerca de 1800 hectares. O município de La Morra é o que tem maior extensão territorial de vinhas, do qual é originário mais de 25% da produção total, estimada em 11 milhões de garrafas por ano.

Cada garrafa no mercado tem um selo de identificação, de cor violeta com a marca inconfundível, característica dos Barolos.

Vinho Barolo - Piemonte - Itália

Terroir

O solo presente nas colinas e montanhas do Piemonte é constituído de calcário, argila, areia, marga e cascalho, dificultando a adaptação da uva Nebbiolo em outros terrenos. O clima com influência mediterrânea e noites mais frias é decisivo nas características do Barolo.

Os maiores contrastes são verificados nas comunas de La Morra e Serralunga d’Alba.

Em La Morra, a forte presença do manganês e magnésio no solo de terra bianca gera vinhos mais frutados, macios e melhores quando jovens. Em serralunga, o solo amarelado e rico em ferro produz vinhos mais fechados, austeros e que necessitam de envelhecimento. Esses contrastes dão origem à divisão de estilos entres os principais produtores de Barolo: modernistas e tradicionalistas.

Produção

Existem dois estilos de produtores de vinho barolo atualmente:

  1. Os tradicionalistas, que seguem a linha de produção de Oudart, onde os vinhos são carregados de aromas com acidez muito alta e taninos relevantes, fazendo com que o envelhecimento favoreça o produto.
  2. Os modernistas, influenciados pelos enólogos Luciano Sandrone e Paolo Scavino, diminuem o tempo de produção com a adoção de técnicas utilizadas mundialmente, como maceração rápida de uvas e armazenamento em barris franceses, adquirindo um produto mais suave, com menos taninos e que atendem prontamente o mercado.

Hoje os Barolos mais modernos, menos tânicos e mais leves, também têm ganhado espaço no mercado, além dos tradicionais, cheios de potência.

As sub-regiões onde são elaborados e os estilos dos produtores influenciam em como o Barolo se apresentará no fim. Também há diferença de sabor entre os dois terrenos em que se localiza o Piemonte. O vale Serralunga possui solo rico em arenito, resultando em vinhos mais carnudos e concentrados, já o vale central Barolo é responsável por variedades mais leves e frutadas. Cada uma dessas alterações traz impactos diretos à bebida, proporcionando uma experiência bastante rica para quem os aprecia.

Envelhecimento

Sendo reconhecido mundialmente por seu potencial de envelhecimento e guarda, uma das regras da DOCG é que para ser Barolo, o vinho precisa ser 100% Nebbiolo e envelhecer pelo menos um ano e meio em barris de carvalho, preferencialmente francês. Embora possa ser consumido antes, o ideal é aguardar 10 anos após a produção. Cada garrafa tem seu tempo de maturação. Há quem diga que em 15 anos ele atinge sua plenitude, os taninos e acidez se suavizam, mostrando toda sua singularidade.

Os Barolos Risierva são envelhecidos por um período mínimo de 62 meses, dos quais 18 em barril de madeira. Para a versão básica, envelhecimento de 38 meses e 18 em barril de madeira.

Características do vinho

O Barolo é um vinho de cor vermelha granada pronunciada, pode ser rubi e ter reflexos laranja acompanhando seu processo de envelhecimento. O aroma é intenso, complexo e particularmente persistente.

Depois de envelhecer o suficiente, o Barolo se abre, geralmente, em aromas de rosas, ervas secas, alcatrão, toques apimentados, tabaco, couro, trufas, junto com a expressão frutada e floral.

Os aromas podem apresentar diferença dependendo do período de guarda.

Nos mais jovens prevalecem notas florais e frutadas, rosa, violeta, ameixa e cereja.

Já um vinho mais maduro, notas como couro, alcatrão, canela, pimenta e baunilha e aromas de frutas secas.

No paladar, o Barolo é um vinho encorpado com uma persistência notável. Há um equilíbrio entre a acidez e os taninos que surpreendem. Seco, com preenchimento total das papilas. Mesmo nos vinhos jovens, onde o tanino prevalece, é possível perceber a robustez no sabor.

O teor alcoólico mínimo é de 13%. É um vinho de guarda que tem que respirar em taça, e recomenda-se decantar ou aerar para melhorar sua experiência, amaciando os taninos e abrindo todo seu aroma.

O Barolo é um tinto inesquecível, considerado uma joia líquida. Ele é uma escolha certeira para um momento especial, para presentear um amigo querido ou para se aprofundar mais no mundo do vinho.

Harmonização

O Barolo deve ser servido a uma temperatura de 18-20° C. São vinhos robustos, estruturados com acidez marcante e taninos potentes, o que pede naturalmente um acompanhamento.

Há quem diga que é melhor apreciá-lo apenas com pão e azeite, mas este clássico se desenvolve bem em muitas harmonizações.

Alguns tipos de queijos curados como, Grana Padano, Parmigiano Reggiano, Pecorino ou ainda queijo de cabra curado fazem boa companhia à Nebbiolo. Carnes e aves de caça, cordeiro, pato e perdiz com especiarias, risoto de cogumelos e receitas com trufas são uma interessante combinação para o vinho em questão.

Vinho Barolo - Piemonte - Itália

Por fim, estando no Piemonte, degustar o Barolo com o tradicional Brasato al Barolo, um cozido de carne com ervas e vegetais em molho à base de Barolo é a melhor pedida com o rei dos vinhos.

Vale lembrar que toda a expressividade do Barolo vem da tradição, da região, da uva, do cuidado e das técnicas empregadas ao longo dos séculos. Aproveite a visita e brinde-se com esse maravilhoso exemplar da vitivinicultura italiana.

Sobre Deyse RibeiroDeyse Ribeiro é natural de Minas Gerais, mas vive na Toscana desde 2007. Fez curso de sommelier na FISAR, master em Wine Expert (Academia del Gusto) e Guia Enológica na Itália. É empresária, guia de turismo, especialista em turismo de experiência na Itália, além de editora do Portal Tour na Itália, e deste site.

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